Pretail: uma nova forma de consumo

Por Camila Beaumord

As regras de consumo mudaram no mundo globalizado. E-commerce, concept stores, compra coletiva, vendas nas redes sociais ou por meio de aplicativos no smartphone. Essas ferramentas entraram tão naturalmente em nossas vidas que só uma conversa com alguém nascido na década de 1940 faz lembrar que a dimensão da experiência de compra era muito mais restrita há meros 10 anos. Caso contrário, seguimos em frente esperando cada vez mais do varejo – mais inovação, mais interatividade, mais promoções, mais novidades.

É justamente pela alta expectativa do consumidor contemporâneo que as marcas entram em um ritmo exaustivo, na busca de recursos para trazer sempre o novo antes do concorrente. Em contrapartida, nasce um movimento que já mencionamos em outras edições da Revista Catarina e no livro More Than Trends, mas foi reforçado pelo bureau Trendwatching. Trata-se do Pretail – uma brincadeira com a palavra “retail” (varejo em inglês) e o prefixo “pre”, em que o próprio comprador toma as rédeas dos projetos antes mesmo do lançamento dos próprios.

Com a popularização das plataformas de crowdfunding (que cresceram em 85% no ano passado, o que equivale a US$ 1,4 bilhão, de acordo com os dados da Massolution), o consumidor percebeu que seus desejos mais absurdos podem se tornar realidade, e que jamais seriam encontrados nos shopping centers. Ao apoiar projetos que ainda estão nas primeiras fases de desenvolvimento, o comprador se engaja na experiência completa e sente que ajudou a lançar um produto único no mercado. Só aí, já mata sua sede por interatividade e novidade.

 

A valorização da criatividade

Mas talvez a sensação que mais empolga os consumidores dos projetos é a da exclusividade. Ao apoiar o desenvolvimento de algo singular no mercado, que ainda não existe em lugar algum, e ser um dos poucos a ter o produto uma vez finalizado faz com que o conceito de Pretail ganhe vida. Em um mundo tão globalizado, tão massificado e com tanta informação democratizada, ter acesso a algo exclusivo é um grande diferencial.

A emoção de estar à frente é o propulsor de uma corrente ainda maior – o pensamento coletivo. Esta é a primeira vez que a criatividade é colocada em um patamar tão alto, porque nunca na história tivemos a tecnologia, o know-how e a cultura do it yourself tão afiados para dar asas ao imaginário dos consumidores. Agora, a oferta e a demanda estão igualadas, o que não acontecia no varejo tradicional.

O interessante da corrente é que ela encoraja compradores a se transformarem em criadores. A profissionalização dos sites de crowdfunding fez sumir antigos medos e mitos sobre o processo (como a apreensão de perder dinheiro no procedimento), conquistando cada vez mais adeptos. Líder do setor, a plataforma Kickstarter divulgou uma pesquisa em 2012 sobre a aceitação das pessoas em relação ao crowdfunding – 2.2 bilhões de consumidores, vindos de 177 países diferentes (o que corresponde a 90% do mundo) se envolveram com iniciativas neste ano, o que representa um aumento de 134% em relação a 2011. Essas pessoas contribuíram com US$275 bilhões, 238% a mais do que no ano anterior.  Com tanta integração, o consumidor que apoia um projeto pode se sentir incentivado a transformar suas próprias ideias em realidade, fomentando ainda mais essa rede.

 

Projeto Pousada Uacari, do Garupa.

Projeto do novo álbum de Marcelo Yuka, do Benfeitoria.

 

Ferramenta social

Apesar do Pretail ser uma tendência global, cada cultura o absorve à sua maneira. De acordo com a pesquisa do Trendwatching, o fenômeno funciona de forma diferente nas Américas do Sul e Central, se comparadas à Europa e Estados Unidos. Imersos no hiperconsumismo há anos, os europeus e norte americanos têm mais facilidade para apoiar ideias que se transformam em produtos. Já a cultura latino-americana carrega uma maior preocupação social, portanto os projetos de crowdfunding aqui estão concentrados em trabalhos que beneficiam a sociedade.

No Brasil, um exemplo recente do crowdfunding sustentável é o Garupa, iniciativa da ONG Associação Garupa. Com foco no turismo, a rede trabalha apenas com projetos de baixo impacto ambiental, que privilegiem o uso de mão-de-obra local, que façam uso consciente de recursos naturais e que preservem os patrimônios naturais e culturais dos lugares. Toda a gestão é realizada através do financiamento coletivo arrecadado pelo site.

Outro exemplo é a Benfeitoria, plataforma brasileira que desde 2011 trata exclusivamente de projetos que geram impacto social. No ano passado, o site trouxe uma novidade: o espaço Rio+, repleto de projetos que visam melhorar a cidade. Com patrocinadores de peso (inclusive a Natura) os fundadores querem levar o modelo a São Paulo, Belo Horizonte e Porto Alegre.

 

Queremos consumir

Ainda assim, o consumismo coletivo tem seu peso no Brasil, mais do que em outros países do continente. Projetos vinculados à arte, à cultura e ao design são frequentemente anunciados em sites, com grande procura dos compradores mesmo com o trabalho em sua primeira fase de desenvolvimento. Isso caracteriza o verdadeiro Pretail.

Seja como você gosta de consumir – pela Internet, na loja ou no pré-lançamento – as linhas que separam cada experiência de compra estão mais tênues. Quem diria que milhões de pessoas estariam financiando produtos que nem sequer existem ainda? Sem dúvidas, o Pretail é o fiado ao contrário. E veio para ficar.