Entrevista: Fabi Mauricio, fundadora da marca Tressê

10.05.2012

Uma semana de moda não é completa sem o burburinho na sala de imprensa sobre alguma novidade apresentada. Durante o Dragão Fashion Brasil, que aconteceu em abril desde ano, Fabi Mauricio e Wannessa Temoteo foram o assunto da noite, ao estrearem sua marca de calçados Tressê durante o desfile de Mark Greiner. A convite do próprio estilista, as designers graduadas pela Universidade Federal do Ceará criaram uma coleção de 25 peças especialmente para a passarela e foram muito bem recebidas pelo público e crítica. Veja nossa conversa com a simpática Fabi sobre o nascimento da marca, o futuro da Tressê e a paixão por uma área que ganha cada vez mais destaque no mercado brasileiro.

 

 

Catarina: Fabi, como nasceu a Tressê?

Fabi Mauricio: Essa é a nossa primeira linha, estamos no começo da história. Eu e a Wannessa somos formadas em Design da Moda, da mesma turma. Já somos amigas há anos. Fizemos intercâmbios para lugares diferentes durante a faculdade e voltamos com a ideia de trabalhar com acessórios. A gente nem tinha se visto ainda e já estava procurando estágios e trabalhos com calçados. Então, quando a gente se reencontrou, foi tipo, “Ai, eu estou louca para trabalhar com sapatos,” “EU TAMBÉM!”

 

C: Vocês já estavam envolvidas na área, então…

FM: Sim, fizemos um estágio juntas em uma marca calçadista local, e eu continuei sempre nessa área e ela começou a trabalhar com moda íntima. Completamos um ano de formadas em 2011 e sentimos que chegou o momento de fundar nossa marca. “Temos que fazer nossa história acontecer, com calçados… é disso que a gente gosta,” eu dizia. Então, no ano passado, fomos fazer um curso de modelagem de calçados na Escola Carrasco, no sul. Passamos três meses lá, fizemos o curso – porque eu acho que é muito importante que o designer, que o criador tenha esse entendimento da viabilidade de seu produto. Eu cansei de chegar na fábrica  onde trabalho com uma ideia linda, mas que não é funcional. Então fizemos questão de buscar isso.

 

C: Passando esse período de planejamento e estudo, quando começou o processo criativo da primeira coleção?

FM: Foi lá mesmo, durante o curso, que conversamos com o Mark [Greiner] sobre a possibilidade da marca e ele falou, “Então vocês vão colocar isso em prática, vão assinar os meus calçados na próxima temporada…” e foi isso! Ficamos apreensivas com a responsabilidade no começo, mas deu tudo certo. Recebemos o convite em novembro de 2011 para a coleção de abril… acho que a gente estendeu demais o processo de criação por achar que é uma responsabilidade muito grande fazer a coleção de calçados para o desfile do Mark Greiner! A produção mesmo foi acontecer só no último mês. Foi uma loucura; a maioria do material foi adquirida em lojas que vendem retalhos, então houve esse grande reaproveitamento de materiais de outras fábricas. Mas nossa escolha sempre foi de acordo com o que acreditávamos ser a cara da marca.

 

 

Backstage no desfile de Mark Greiner

 

C: Que legal a iniciativa de reaproveitar materiais. Isso foi algo que vocês discutiram como uma estratégia sustentável ou foi um escolha acidental, para usar os recursos disponíveis?

FM: Foi acidental, assim, compramos os materiais em uma loja que vende refugos de outras fábricas grandes, então foram reutilizados nesse sentido. Não tínhamos a intenção de partir para a veia sustentável, mas acabou se tornando isso.

 

C: Mas vocês pretendem fazer disso um foco?

FM: Acho que… talvez. Como falei, não foi planejado. Tem certos materiais que não chegam aqui no mercado, então quando a gente viaja pro sul ou para Minas e conseguimos encontrar refugos – que é uma palavra super feia, né? – mas que é o resto de um material lindo que não serve mais para uma fábrica, por exemplo, tentamos adaptar no nosso caso. Então é uma ideia, mas não é nosso foco agora.

 

C: Como vocês definiram o DNA da Tressê?

FM: “Adornos para os pés”. Essa é a nossa essência. Assim, pesquisamos muito… apesar do curto tempo que tínhamos para pensar na criação, na produção – e a gente não tem fábrica, as peças foram produzidas em fábricas parceiras – focamos muito na identidade da marca e na própria comunicação visual. E achamos que o resultado ficou lindo! Foi uma amiga nossa, formada em Design Gráfico, que fez tudo e ficamos totalmente encantadas. Foi super bacana quando ela nos entregou o arquivo final, achamos tudo lindo. E… é muito difícil, né, você explicar para um profissional de outra disciplina o que você pensa, o que você imagina. Mas acho que a Tressê não poderia ter outra cara.

 

E o “adorno para os pés” surgiu nesse processo. Quando estávamos pensando em como descrever a marca, chegamos nessa frase porque é isso que queremos. Queremos que um sapato Tressê seja especial, único, e sirva quase como um objeto-companheiro, sabe? Quando você tem aquele afeto pelo sapato porque ele a remete a uma época na sua vida.

 

C: O nome também combina com essa ideia. Como vocês chegaram nele?

FM: Explicamos que é um entrelaçamento de nossas personalidades. A Wannessa é super orgânica, criativa… até o traço dela é leve e quase poético. Eu sou mais simétrica, mais geométrica, mais certinha. Não que eu seja tão perfeccionista, mas por ser mais racional, eu acabo pensando muito nas estratégias da marca, enquanto ela foca mais na criação. E esse contraste funciona muito bem!

 

Processo produtivo da coleção

 

C: Quais são seus planos para a Tressê agora?

FM: Estruturar a marca. Estruturar como negócio, porque é o principal. Na verdade, esse teria sido o primeiro passo normalmente, mas acabamos fazendo o processo inverso, pelas circunstâncias… enfim. Acho que agora temos que decidir o que vamos fazer. Pretendemos lançar mais dez modelos de calçados no segundo semestre, juntamente com esses, e também opções desses modelos em rasteira. Porque só fizemos saltos para o desfile, mas conhecemos mulheres super elegantes que preferem calçados mais baixos. Então, acho legal ter um modelo desses em uma rasteira totalmente diferenciada.

Queremos trabalhar em pequena escala. Não queremos virar como as grandes fábricas, com 200 modelos em loja… assim, isso é ótimo, claro, mas não é o nosso foco. Eu ainda tenho meu emprego na fábrica, a Wannessa também continua trabalhando com lingerie. Mas a gente vai continuar nesse rumo e construir a história da Tressê.

 

C: Como vocês pretendem manter a marca independente?

FM: Como pensamos em trabalhar em pequena escala, não pretendemos manter uma fábrica. O que pensamos é procurar parceiros para que possamos produzir mantendo a qualidade dos produtos dessa primeira coleção. Queremos encontrar esses profissionais; Fortaleza é um polo calçadista e vamos procurar também em Juazeiro, porque muitas fábricas lá fazem um trabalho super bacana.

 

C: E a comercialização?

FM: Não planejamos a fundo ainda, mas não podemos perder tempo, nem o buzz que o Dragão nos trouxe. Penso que o online por enquanto seja uma opção, assim como vender nas boutiques bacanas na cidade. Tem algumas áreas específicas que vendem produtos legais aqui; acho que vão gostar de nos receber.

 

Camila Beaumord

Imagens: Wannessa Temoteo e divulgação

 

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