África e o incentivo ao mercado local

Milhões de pessoas doam anualmente suas roupas para que as mesmas vão aos necessitados ou para a revenda em lojas de segunda mão, principalmente para a África. Isso gera, no entanto, ​um mercado secundário regido pelos princípios do mercado livre. “A doação de suas roupas usadas pode ser bem intencionada, mas eles podem estar fazendo mais mal do que bem”, escreveu Dr. Andrew Brooks, professor de geografia de desenvolvimento​ ​no​ ​King’s​ ​College​ ​London.

De acordo com o Council for Textile Recycling, em média o americano desperdiça 70 quilos de resíduos têxteis ao ano. Pensando por esse lado, fazer com que isso não se torne lixo nos aterros sanitários é uma boa ideia. Entretanto, isso faz com que os países importadores dessas roupas de segunda mão acabe tendo um impacto negativo em suas indústrias locais,​ ​já​ ​que​ ​as​ ​roupas​ ​importadas​ ​superaram​ ​as​ ​que​ ​são​ ​produzidas​ ​nos​ ​próprios​ ​países.

A Comunidade da África Oriental (EAC) pretendia proscrever a importação de roupas de segunda mão em seus países, a fim de impulsionar o mercado local. O governo norte americano no entanto criticou a proposta, como já era de se esperar, alegando que isso geraria “dificuldades significativas” para a indústria americana, e colocar milhares de trabalhos em risco. Vale lembrar que esse não seria o primeiro acordo quebrado após a eleição de Trump, já que nos últimos meses os EUA sofreram retirada da ​Parceria Transpacífica (TPP), ameaça arrancar o ​Tratado de Livre Comércio da América do Norte (NAFTA)​ ​e​ ​procura​ ​renegociar​ ​o​ ​acordo​ ​de​ ​livre​ ​comércio​ ​EUA​ ​-​ ​Coréia​ ​do​ ​Sul.

A balança é realmente desproporcional. Enquanto Ruanda, Tanzânia e Uganda (países participantes do EAC) exportam menos de 50 milhões de dólares para os Estados Unidos, o país americano mais que quadruplica o valor, ganhando 281 milhões de dólares ao exportar para​ ​a​ ​África.

Na Índia, por exemplo, as roupas consideradas mutiladas representam a maior parte do mercado. A editora da Vogue local, Bandana Tewari, fala sobre o assunto:​”Na Índia há um enorme negócio de contrabando. A grande maioria das importações – cerca de 60% – são roupas mutiladas. Mas quando o governo indiano planejava aumentar o número de licenças, The Clothing Manufacturers Association of India subiu as armas dizendo que o mercado seria inundado com roupas usadas e que os fabricantes domésticos ficariam fora do mercado”. Isso gera uma situação controversa, onde sempre haverá vencedores e perdedores.

Enquanto essa importação representa um risco para os produtores locais, do outro lado da moeda vemos um mercado crescente para outros. Atualmente os comerciantes de roupas de segunda mão são considerados uma das maiores economias informais do continente. Só Gana importa mais do que 30.000 toneladas de roupas de segunda mão a cada ano, tornando-se​ ​o​ ​principal​ ​importador​ ​no​ ​oeste​ ​África.
A Associação de Reciclagem de Têxteis, que gerencia recicladoras e distribuidoras de roupas de segunda mão em Kandla, emprega cerca de 3 mil pessoas por ano, por exemplo. As roupas recebidas como doação precisam passar por uma espécie de triagem, onde são classificadas em mutiladas ou ​wearable​, e assim serão redirecionadas tanto para países africanos​ ​quanto​ ​para​ ​a​ ​Índia,​ ​Polônia,​ ​Paquistão,​ ​Ucrânia,​ ​Chile​ ​e​ ​Guatemala.

A geração millennial, composta por designers cada vez mais criativos e engajados, também faz sua colaboração usando a importação de peças de segunda mão em prol do meio ambiente e da moda de qualidade. Muitos criam coleções utilizando essas roupas como base, para criar novas padronagens, designs e utilidade, e vendem o produto personalizado em páginas de instagram, lojas vintages ou serviços de styling personalizado. Isso gera tanto uma produção e, consequentemente, um consumo mais consciente, quanto serve como ferramenta para aguçar a criatividade e capacidade de inovação, mantendo a moda nessa​ ​constante​ ​mudança​ ​e​ ​renovação.

 

Visto tudo isso, é bem provável que não haverá a proibição de importação, como a EAC planeja, mas continua se estudando como a África poderá reviver as indústrias locais, com a preocupação de não se aumentar o preço dos produtos, já que roupa é um item indispensável e a população local é carente. ​“Intermediários estão fazendo milhões de dólares para suas próprias organizações e projetos sociais, mas não está sendo feito muito impacto para ajudar os realmente pobres nos países do terceiro mundo… Uma vez desgastadas pelos pobres, milhões de roupas entram em aterros do terceiro mundo, longe dos países afluentes. Onde é que fica a responsabilidade dos países de primeiro mundo que ​ esvaziam seus bens​ usados​ nos​ terceiros?”​ ​questiona​ ​Tewari.

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