Em livro, psicanalista analisa os sonhos como forma de resistência em contextos violentos

| Redação
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Como os sonhos revelam as inúmeras violências enfrentadas pela juventude no contexto sociopolítico brasileiro? Quanto da opressão cotidiana aparece nessas produções oníricas? De que maneira a elaboração noturna também é uma forma de resistir ao autoritarismo e à brutalidade? Essas são as perguntas que guiam o psicanalista e pesquisador Caio Garrido no livro O Sonho como Despertar Social: Por uma política existencial de desalienação através do sonhar noturno.

Resultado da dissertação de mestrado apresentada no Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), a obra investiga sonhos de entrevistadas diferentes para discorrer sobre o tema. Na primeira análise, a “sonhante” atravessa um caminho sinuoso para chegar ao hospital e visitar alguém que estava doente, mas, no local, precisa passar por várias pessoas distribuídas em colchões no chão. Na segunda, a personagem está em uma sala de aula e, enquanto todas as estudantes ao seu redor conseguem escrever a redação, ela fica imóvel, sem saber o que fazer. 

A partir desses conteúdos e de outros compartilhados durante as entrevistas, Caio Garrido discorre sobre como o onírico pode provocar um despertar social para novos horizontes políticos, sociais e culturais. Ao serem pensados como uma oportunidade para reconhecer sentimentos, memórias, situações e realidades que costumam ser esquecidas, os sonhos se tornam, nesta perspectiva, uma maneira de despertar os sujeitos de suas condições alienantes. 

Os sonhos – alvos de extrema negligência, abandonados e ignorados que foram no curso de nossa história, pela busca de transparência através da razão típica de nossos tempos – se apresentam muito mais verdadeiros que a realidade diurna, ‘acordada’, pois mostram, em certo sentido, a realidade como ela é, isto é, a forma como investimos a realidade externa de projeções e realidades enganosas. Nos sonhos, as aparências que em vigília enganam, ganham relevo e fazem-nos questionar sobre elas, nos convocando a investigá-las. (…) Dessa forma, os sonhos noturnos seriam muito mais realistas e autênticos, já que a amostra simbólica daquilo que sonhamos e tentamos representar por meio deles dá uma boa e melhor demonstração e espelho na significação mais profunda daquilo que vivenciamos em nossa vida de vigília
(O Sonho como Despertar Social, p. 232) 

Alicerçado em referências como Sigmund Freud, Jacques Lacan, Wilfred Bion, Donald Winnicott, Charlotte Beradt e Sidarta Ribeiro, o autor também busca explicitar a conexão entre essas elaborações com as diferentes violências enfrentadas pela juventude brasileira. A partir de um olhar para contextos de vulnerabilidade social, Garrido lista o que entende como impactos emocionais do neoliberalismo, dos sistemas de exclusão do capitalismo e das políticas da extrema direita. 

Com assuntos atuais e uma linguagem que descomplica termos psicanalíticos, O Sonho como Despertar Social é direcionado a pessoas da área, mas também ao público geral com interesse em debates sobre saúde mental. “O livro busca abranger uma ampla gama de interesses do público, trazendo temas importantes para a discussão pública da nossa contemporaneidade, que tratam de questões políticas, sociais e culturais, em sua relação com nosso psiquismo e nossa saúde mental diante de tantas situações traumáticas”, afirma o pesquisador. 

FICHA TÉCNICA 

Título: O Sonho como Despertar Social 
Subtítulo: Por uma política existencial de desalienação através do sonhar noturno 
Autor: Caio Garrido 
Editora: INM Editora 
ISBN: 978-65-85823-42-5 
Páginas: 246 
Preço: R$ 75,50 (físico) 
Onde comprar: Amazon | INM Editora 

Sobre o autor: Caio Garrido é psicanalista, escritor e mestre em Ciências da Saúde pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Pesquisador sobre as relações entre psicanálise, psicologia social e sonhar noturno, ele tem 15 anos de experiência em consultório e realiza a Roda de Sonhos Noturnos na Casa Comum, em Ribeirão Preto. Como escritor, tem oito livros publicados. Entre eles, “Paniricocrônicas: Crônicas dos Sonhos em Tempos de Pandemia”, “A Nova Era Tecnológica: Redes Sociais, Inteligência Artificial e Realidade Virtual – Um olhar psicanalítico e social” e O Sonho como Despertar Social: Por uma política existencial de desalienação através do sonhar noturno

Instagram: @caiogarridopsicanalista